Somos pretos, somos brasileiros, somos herdeiros de reis e rainhas, somos antirracistas e ciclistas apaixonados pelas duas rodas.
Uma empresa criada em meio a um letramento racial para unir consciência e o amor pelo esporte, para trazer democracia, pertencimento e acima de tudo voz para quem alcançou o seu lugar neste universo.
Jorge Bernardo nasceu e cresceu no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo. Cresceu apaixonado por esporte num bairro que passou anos sendo listado entre os mais violentos da capital.
O problema nunca foi vontade. Era acesso.
"Cresci apaixonado pelos esportes, mas sempre com pouco acesso a qualquer infraestrutura. As piscinas públicas estavam sempre longe e lotadas. Eu precisava acordar muito cedo para enfrentar a fila de entrada ou durante os passeios escolares para o SESC."
Acordar antes do sol para pegar fila não é disciplina. É o preço que se cobra de quem nasceu no lugar errado do mapa.
Ele seguiu mesmo assim. Construiu carreira em tecnologia e cibersegurança, e continuou pedalando.
Letramento racial foi coisa que ele só conheceu adulto. Antes disso, não tinha as palavras para nomear o que já vivia — e o que não se nomeia não se enfrenta.
Formado em Cibersegurança e Tecnologia da Informação, mudou-se para São José dos Campos e passou a trabalhar remotamente. Ouvindo podcast, chegou ao AmarElo Prisma, do Emicida. Foi ali que aprendeu a importância de ocupação e pertencimento.
E foi ali que uma incomodação antiga ganhou nome. A cena se repete em qualquer ciclovia deste país: um preto num equipamento bom, e o olhar que vem junto.
"É como se não pudéssemos ter aquele equipamento, parece que temos sempre de estar provando algo para alguém."
Não é sobre bicicleta. É sobre quem tem permissão de estar ali.
A De Preto Pra Preto foi idealizada durante a pandemia e lançada na Shimano Fest, o maior evento de ciclismo da América Latina, em 20 de agosto de 2022.
"Estou criando a marca também para canalizar toda minha raiva com o atual momento do Brasil, mas principalmente para apoiar a ascensão do povo preto em lugares que antes nos eram negados."
A roupa é a resposta. Você não precisa explicar nada a ninguém quando o que você veste já disse.
A marca é construída sobre o Mpatapo, símbolo adinkra do povo akan, na África Ocidental. É o nó da paz — a paz que vem depois da luta, não no lugar dela.
O desenho foi traçado sobre uma grade de Fibonacci, e lê as duas coisas ao mesmo tempo: o nó ancestral e a corrente da bicicleta.
O sentido é direto. O preto pode estar onde ele quiser, inclusive no ciclismo. Depois de tanta luta, enfim a paz: passa a pertencer o que sempre foi seu por direito.
Aqui nenhuma estampa é enfeite.
Sankofa é adinkra: volte e pegue o que ficou para trás. Onyankopon carrega Onyankopon Adom Nti Biribiara Bɛyɛ Yie — pela graça de Deus, tudo vai ficar bem. Nkrumah Kese honra Kwame Nkrumah. Major Taylor foi campeão mundial de ciclismo em 1899, quando velódromo nenhum queria um preto na pista. Mud Cloth é o bogolanfini do Mali. Fogo nos Racistas não precisa de tradução.
Quem pergunta o que significa a sua camisa recebe uma aula. É esse o plano.
Ampliar o sentimento de pertencimento e difundir a cultura antirracista na sociedade através do vestuário de ciclismo, com qualidade e design.
Qualidade não é detalhe secundário aqui. Tecido com Truelife® DRY e proteção UV 50+, zíper full emborrachado, corte a laser, barra com silicone, modelagem performance de corte europeu. A peça tem que aguentar pedal de verdade — porque a pessoa que veste pedala de verdade.
Toda vez que um preto entra no pelotão de cabeça erguida, o esporte muda um pouco de forma. Não é favor, não é cota, não é convite.
É ocupação.
Somos pretos, somos brasileiros, somos herdeiros de reis e rainhas, somos antirracistas e ciclistas apaixonados pelas duas rodas.
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